Nem sempre foi assim como agora, ameaçada, alicerçada em pedras foreiras para deter o mar. Antes, a Barra era uma cidadezinha amena, preguiçosamente estirada debaixo do sol, na areia. E o mar, ah, o mar era daqueles que, na maré baixa, precisava que se andasse muito para chegar até as ondas e que, na maré cheia, batia comportadamente como um cavalheiro educado nas delicadas colinas brancas, cobertas de conchas e raízes de salsa da praia.
E isso não faz tanto tempo. Porém já viajei tanto e já andei tanto por esse mundo sem tranqueira que sei que todos os lugares passam por mudanças. E as pessoas também. As pessoas, essas, tadinhas! não só se transformam - às vezes para o bem, às vezes para o mal. As pessoas se findam.
Que fazer? A vida é um sonho, já dizia Calderón de La Barca. Ou melhor, a vida é como Gringo, herói de um faroeste de Afonso Brazza. A vida não perdoa, mata.
Então, vou tratando de viver e de acender a memória. Enquanto der, enquanto eu não me findar, enquanto eu me considerar escritora. Pois que é próprio da memória de quem escreve (quem escreve por ofício; não para obter nebulosas vantagens: é triste dizer isso, mas tem gente por aí que faz da literatura uma cavação ignóbil...) é próprio da memória o contrato virtual com as coisas que, depois, as palavras revestem corporalmente. De beleza ou de horror.
Ora, tudo que tenho no baú da memória, eu devo à Barra. À minha Conceição da Barra, aqui nomeada com nome e sobrenome para que não a confundam os desavisados com outras Barras que de outros são. Devo à Barra tudo de que me lembro. Mesmo o que está para além de seus pontos cardeais: Atlântico, Cricaré, Guaxindiba, Pontal do Sul.
Minha intimidade com o assunto de rememorança barrense vem com o selo de legitimidade. E há muita matéria de recordação. No momento atual, ando coletando algumas estranhices ocorridas na Barra. Como a aparição de gente vinda do estrangeiro e logo desaparecida. Fatos e casos de viajantes arribados que eu ouvia desde a infância ou que pude acompanhar também.
Tem a chegada de um espanhol, com botas enormes e uma sacola pesada, que saiu do convés de um navio e sumiu por dentro das matas e quando retornou vinha sem as botas e com a sacola vazia. O sujeito tomou o rumo do cais, embarcou e jamais retornou à cidade. Iniciou-se uma romaria de escavações à cata das tais botas, pois se acreditava que, em algum lugar, dentro delas, o espanhol havia enterrado um tesouro.
Espanhóis, tem ainda aqueles três que surgiram do nada e que se instalaram em uma casinha da Rua da Praia. Mal falavam a língua da terra. Ninguém sabia ao certo o que eles faziam. Eram retraídos, porém eram gentis. Do mais sociável dos três, as moças fugiam nos bailes, pois dançava de mãos espalmadas, como um camponês catalão.
E tem muito mais que talvez eu continue contar a vocês, em outra crônica. Porque nunca se deve deixar de contemplar o mistério das lembranças de uma criatura. Ainda que venham impressas sobre uma página quente.
(publicado no jornal A Gazeta, de 10 julho 2011)
Existe um buraco enorme na camada de ozônio de sua cultura se você nunca leu "A Revolução dos Bichos", a sátira de George Orwell que, desde o ano de lançamento (1945), se sustenta como um dos livros mais demolidores jamais escritos pela espécie humana. E se você já o leu, entenderá que a realidade pode superar a mais delirante ficção, quando atentar para a notícia que circulou nesta semana por sites e jornais, aqui na Inglaterra, pátria do genial escritor.
Deu-se que um morador de Southampton, em Hampshire, estava tranquilamente reclinado em um gramado nas proximidades da saída de Hedge End, a gozar o sol de primavera quando, de repente, viu um tigre branco imenso que o espreitava, à distância, com ar de quem fareja um pitéu. O sujeito, com medo de ser transformado em almoço felino, levantou-se. E, com toda a rapidez que lhe permitia a fleuma britânica, dirigiu-se até a casa, só parando depois de trancar bem as portas e as janelas.
Dali, ele chamou a polícia e avisou à emissora de televisão que naquele momento cobria um jogo de críquete no estádio Rose Bowl. Uma viatura foi mandada para averiguação ao local da insólita aparição. Pelo rádio, os policiais confirmaram que estavam a olhar para um tigre.
Foi um Deus nos acuda, à moda das terras da Rainha! Enquanto alguns burocratas traçavam planos de fechamento da rodovia de acesso à cidade, o jogo de críquete foi interrompido, o estádio foi evacuado e um helicóptero equipado com câmera térmica capaz de detectar o calor de um corpo qualquer foi posto no ar, conduzindo também dois especialistas em selvagens felídeos, devidamente equipados com correias, redes e dardos tranqüilizantes.
Montada toda parafernália, começou-se a espreita ao perigoso animal. Depois de algum tempo, o chefe da operação de captura percebeu que o bicho não se movia. O helicóptero se aproximou. O tigre rolou pela grama, empurrado pelo deslocamento de vento. Então, viu-se que era de pelúcia. Bem fofo e em tamanho real! Até hoje a polícia está à procura de quem plantou o brinquedo ali, na savana.
Essa é uma comédia verdadeira de enganos, embora lembre as gags dos filmes de Carlitos. Mas, atualmente, verdade e mentira estão confundidas. Não há mais certeza de nada. Assim, quem pode assegurar que tal tigre de Hedge End não fizesse parte de uma estranha revolução? Quem sabe as criaturas de quatro patas já se estejam organizando contra as de duas patas, como no citado livro de Orwell? Só que desta vez seria a revolução dos animais de pelúcia.
Por vias de dúvida, passei a vigiar o meu gato de pano, Apichatpong Weerasethakul. Ele é feito de tecido sedoso e listrado, está recheado com bolinhas macias e foi adquirido em uma loja do aeroporto, em Bancoc, em uma tarde de outubro. Coloquei-o sobre o sofá como uma almofada. E lá ficou imóvel. No entanto, desconfio que de vez em quando remexe as orelhas pontudas. Afinal, as coisas estão pelo avesso. Tudo pode acontecer neste mundo que anda de ponta-cabeça.
(Publicado no jornal A Gazeta, Vitória, ES - em 29 maio 2011)
Tudo começou com a desconfiança de um amigo. "Estão nos passando gato por lebre", ele disse. "Compare esses textos. Estão assinados pela mesma criatura. Mas parecem ser da mesma pessoa?"
Tem coisas que eu não leio por falta de tempo. E tem outras que eu absolutamente prefiro não ler. Os textos que meu amigo brandia como se fossem coelhos suspensos pelas pontudas orelhas se encaixavam nessa última perspectiva. Porém não ficava bem explicitar isso a ele, naquele momento.
"Compare. Neste aqui, mais antigo, o estilo é uma mixórdia pessoal, se é que se pode chamar isso de estilo", continuou meu amigo, engasgando de indignação. "Agora veja este outro. Certinho! Coalhado de ideias elevadas, adjetivos nobres, vírgulas postas no devido lugar."
"Ora, todo mundo tem seus dias melhores e piores para escrever", eu falei.
"E quando os escritos são sempre piores por anos a fio? Lá um dia, baixa o Espírito Santo em forma de pombinha, dá-se o estalo dentro da cabeça, começa-se a ser um Dostoiévski, el escriba del alma, etc? Ah não! Isso cheira a engrupimento. Deve ter alguém escrevendo isso aí tão arrumadinho. Só que não é quem está assinando!"
"Um escritor fantasma? Um gosth writer como aquele do filme de Polanski? Que excitante", eu disse para desanuviar.
Mas ele estava chateado.
"Excitante? Vindo de quem vem, cheira mais a armação. O que será que está por trás disso?", concluiu com ar de cavaleiro que do alto de um mirante da torre vê, com preocupação, o movimento suspeito de larápios em torno do castelo.
Até hoje não sei por que ele demonstrava tanta indignação. Meu amigo tinha idade e experiência bastante para entender que tem muita gente sem escrúpulos que passa a vida enganando os desprevenidos, na maior cara de pau. No entanto, ele deve ter lá suas razões, pois conhece certas operações sorrateiras e conhece seu gado, como se fala na Barra. O certo é que, desse episódio curioso, me veio a vontade de entrevistar um ghost writer. E foi o que fiz na crônica de quatro semanas atrás, quando pude contatar um deles, convidá-lo para tomar um café comigo e convencê-lo a falar.
Depois daquela crônica, muitos leitores me escreveram para comentá-la. Entre eles, dois escritores fantasmas que - se estão a me ler agora - saberão que lhes sou muito grata pelas gentilezas e por alguns detalhes que me confiaram, os quais eu juro que vão para o túmulo comigo.
E vejam as belas palavras de um deles, respondendo à pergunta que fiz àquele outro entrevistado na crônica anterior: "O que você sente quando outra pessoa brilha a suas custas?"
"É como ver o filho com outro pai. Como plantar o trigo, ceifar e colher e não comer o pão; como plantar, cuidar da videira e não saborear o vinho, como cuidar do gado e não comer a carne; ter Deus no coração e padecer no limbo".
Por isso, aqui, faço questão de render homenagem a esses bravos companheiros, escritores que permanecem em segredo, ocultos na sombra, enquanto outras pessoas usufruem as glórias do trabalho deles.
(Publicado no jornal A Gazeta, de 15 de maio de 2011)
É um daqueles momentos, no meio da noite. Você está em casa, relaxando e bebericando um bom copo de vinho e resolve ligar a tevê. Você vai zapeando até encontrar algo que valha a pena. O que não é tão fácil nessa maquininha de fazer alienados, cheia de obviedades, novelas, propagandas e besteiras disfarçadas de sabedoria. Se bem que, de vez em quando, dá pra gente garimpar certas ilhas de conhecimentos, criaturas e fatos que merecem atenção.
Você vai zapeando. Acha a TV Cultura, o bravo canal que pouca gente vê. Passa o documentário de Anne Andreu (2004), sobre François Truffaut. É um filme feito de papeizinhos anotados, cartas, roteiros, fotografias e depoimentos de pessoas que amavam esse homem que amava as mulheres e que fez filmes sobre o sexo, o amor e a morte. O melhor de tudo é ouvir Truffaut dizer a frase de Jean Cocteau: “A poesia é indispensável – eu só não sei para quê”. É um paradoxo. Para mim, tem um toque de varinha mágica. Eu estava procurando um jeito para falar sobre o livro “A folha da hera”, de Reinaldo Santos Neves. E não sabia como começar.
Em “A folha da hera”, logo me chamou a atenção a beleza física do volume, o primeiro de uma série prometida de três. Depois, fiquei embasbacada com tanta ousadia. O romance se passa pela versão brasileira de outro romance norte-americano, que por sua vez é a edição crítica de um manuscrito de 1516, editado em inglês com tradução em português, contendo uma suposta tradução inglesa de 1483 de uma desaparecida crônica francesa de 1372. É um labirinto! A vertigem aumenta quando se lê que o autor brasileiro que faz a tradução do texto americano e o publica no formato bilíngüe se chama Reynaldo Santos Neves (com y). E Reinaldo Santos Neves, o mago que criou toda essa ficcional alquimia? Reinaldo, o autor verdadeiro, assina a parte externa, inclusive a emocionada dedicatória a seu pai, o meu mestre inesquecível, Guilherme Santos Neves.
A trama é tão intrincada, tão irônico é o jogo, tão formosa é a maneira de dispor as histórias que se cruzam em duas línguas, confeitadas de termos medievais, que não é de espantar que certos editores viciados em publicar uma literatura de purpurina (aquela que só serve para alimentar os lucros e as vaidades) tenham recusado dar o livro à publicação. Melhor. Assim ele teve a ocasião de sair com o selo da SECULT. Dessa forma, para sempre vai dar testemunho do trabalho que a Biblioteca Pública Estadual do Espírito Santo vem realizando sob o comando discreto, eficiente e elegante de sua coordenadora, Rita de Cássia Maia e Silva Costa, que fez da Biblioteca um espaço vibrante, pleno de vida e instrução.
“A folha da hera” é um romance que não tem igual no terreno da indispensabilidade artística, de que Jean Cocteau fala. É uma ficção puro sangue. Tem a força e o brilho da literatura, em seu stricto sensu. É um romance que a mais nada parece prestar vassalagem, a não ser à arte de compor com as palavras, em que é especialista o seu magnífico autor.
(Publicado em A Gazeta, Vitória,ES. Em 01 de maio de 2011)
três links para blogs que falam da Terceira Mostra Itaú Cultural de Cinema de Bordas, abril, 2011.
http://ocinedude.blogspot.com/2011/04/cinema-de-bordas-2011.html
http://filmesdoumbral.blogspot.com/2011/04/cinema-de-bordas-day-1.html
http://cine-monstro.blogspot.com/2011/04/cinema-de-bordas-3-edicao.html?spref=fb
Era uma dessas tardes murchas de outono. Ele era um velho escritor. Eu o conhecia desde o tempo em que as revistas literárias faziam sucesso, os alunos de cursinhos sabiam quem tinha sido Camões e os blogs não citavam frases enfeitadas da Bruna Lombardi como sendo de autoria de Clarice Lispector.
Eu estava constrangida. Nunca fui muito boa em fazer entrevistas. Porém, noblesse oblige - como diria o professor de francês, em meus tempos de estudante na Ufes.
- Que tal começar explicando a sua profissão? - eu falei.
Ele sorveu um gole do café, quase fechando os olhos de gosto por cima da beirada da xícara.
- Sou um ghost writer - falou. - Ou seja, sou um escritor fantasma. Escrevo para quem quer se passar por escritor, mas não tem talento nem tempo.
- Isso não é trapaça? - indaguei. E imediatamente me senti a idiota perfeita.
- Ora, minha querida - disse ele, me olhando com jeito de quem se divertia. - Você não tem idéia de quanta gente faz uso de meus serviços. Faço de relatórios banais encomendados por executivos a livros de autoajuda e autobiografias. Passando por discursos. Não sou Ted Sorense, que criou a famosa frase de Kennedy: "Não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo seu país", porém muitas Suas Excelências eu tenho em minha lista!
- Você cobra caro?
- Isso depende. Crônicas, contos e romances custam muito mais caro que o resto. Afinal, perpetrar um certo tom literário exige potência. Equivale a ingerir um Viagra intelectual.
- E os leitores não reconhecem seu estilo?
- Absolutamente. Sou famoso por minha eficiência em simulações. Basta que o pretenso autor ou autora me dê alguns detalhes do que pretende que eu escreva. Por exemplo, o tipo de vacas preferidas, se o caso é escrever um romance renascentista, com abundância de pastoras e queijos; o tipo de situação urbana, se o caso é escrever um conto modernoso; o tipo de paisagens ou de criaturas que habitam uma cidade ou um povoado, se o caso é fazer uma crônica para ser publicada em jornal ou revista de determinada região. Às vezes, me confundo e coisas típicas ou rurais de um lugar aparecem misturadas com coisas de outro...
- Ninguém desconfia de que quem assinou não foi quem escreveu?
- Ah, é preciso ter muito faro para isso. Um bom ghost writer jamais deixa pistas.
- Quando outra pessoa brilha a suas custas, você não sente vontade de desmentir a fraude?
- Eu escrevo, recebo o pagamento e desapareço nas brumas, como um discreto espectro irlandês.
A essa altura, eu me perguntava se da cabeça dele, que uma vez teve negros cabelos e hoje estava grisalha, já não teriam saído alguns textos que eu mesma tinha lido. Quem sabe, até textos assinados por muita gente conhecida? Veio-me um sentimento de desilusão. Mas o mundo é assim mesmo cheio de mentiras e enganos, pensei. Pelo menos, o ghost writer parecia feliz. Pois agora pagava suas contas. Ainda que fosse à custa da vaidade humana, em sua tola e vã pretensão.
(Publicado no jornal A Gazeta, Vitória, ES. Em 17 de abril de 2011)
Revejo um documentário: "Marilyn no Divã" (Jeudy & Schneider). É polêmico porque, ao invés do glamour de costume, traz os detalhes mais tristes e mais sórdidos da vida de Marilyn Monroe. Do começo ao final, é um nunca acabar de crises, ataques de humor, chiliques desesperados. E no epicentro de tantos horrores, uma mulher tão loura e tão linda que feria os olhares.
A crer nas histórias ali contadas, Marilyn não suportava a ideia de envelhecer. Mas, acima de tudo, ela não aguentava passar despercebida. Era como uma roxa flor que se exibe à luz do sol para atrair as abelhas. Ela só conseguia viver em função dos olhares dos outros. E tudo o que fazia visava à própria exposição.
Assim, enquanto ia perdendo o frescor da juventude e do corpo, Marilyn tentava se manter à tona do inferno de gelo egocêntrico que a consumia. Casou-se um escritor, tentou representar papéis mais "sérios" e "artísticos", como a histérica Roslyn, de "Os Desajustados", lambeu as botas de homens poderosos e submeteu-se a catar as migalhas que lhe atiravam os políticos como os irmãos Kennedy. O que o documentário mostra sem dó nem piedade é uma pobre criatura perdida nas malhas da própria incapacidade de se autoenxergar. A exposição constante ao fogo da mídia acaba por cozinhar os miolos de uma pessoa - dizia o meu saudoso José Arthur Bogea.
Por um desses acasos meio tortos, assisto ao documentário e, no mesmo dia, me chega notícia da morte de Cibele Dorsa.
Cibele era bonita e era loura como Marilyn. Queria ser famosa. Foi dama da sociedade. Depois, tornou-se modelo e atriz. Talvez tenha sido a incapacidade de viver fora do centro das atenções alheias que a fez publicar dois livros: "Homens no Bolso", em que dava conselhos otimistas às mulheres, e "5:00 A.M.", em que relatava um acidente sofrido por ela mesma. O retrato da própria Cibele com o rosto machucado e um olho roxo foi feito por uma especialista em efeitos visuais de Hollywood para ilustrar a capa deste último que, como tantos outros que são escritos hoje em dia, dá uma medida do poço de bobagens e vaidades em que mergulhou uma certa literatura de purpurina, nestes tempos de pura exibição pessoal.
Como Marilyn, Cibele não imaginava a vida sem a constante presença de olhares focados sobre ela. E nem a morte. Por isso, em janeiro deste ano, ela anunciou pelo Twitter a queda mortal de seu noivo, um apresentador do canal E! Entertainment. E agora ela própria postou um recado na rede, antes de pular daquela mesma janela de um sétimo andar. Cibele suicidou-se. Como fez Marilyn ao entupir-se de comprimidos, naquela madrugada cinzenta de agosto.
Todo suicídio traz em seu interior a pergunta: qual o sentido de se viver? - segundo Camus. E tudo o que há de irredutível e de apaixonado no interior do coração humano anima-se com a vida. Mas, quando a vida é vivida de modo externo como espelho dos olhos alheios, um suicídio pode ser também um espetáculo, uma evidência absurda, um modo terrível de alguém se expor.
(Publicado no jornal A Gazeta, Vitória, ES,. 03 abril 2011)
Todo mundo sabe que em nosso país o ano só começa depois do carnaval. E é emocionante pensar que, justamente neste período, tem alguém lendo estas mal traçadas linhas. E se é este seu caso, amada leitora ou amado leitor, saiba que lhe desejo um bom fim de ano, nestes três dias em que o equinócio de outono garante a todos nós a fantasia de uma espécie de fuga da vala comum que vem aí, na quarta-feira.
Antes de tudo, cabe-me explicar o que o equinócio de outono - coisa que tem um certo ar de melancolia, folhas caídas e tons de camurça - está fazendo aqui, nesta crônica que deveria ser movida a confetes, cores e serpentinas. Se bem que as serpentinas se encontram no banco dos réus, depois da horrível tragédia que uma delas, da família das metalizadas, causou na cidadezinha mineira de Bandeira do Sul.
Mas, voltando ao equinócio, para que o calendário marque os três dias de folia e brincadeira você pra lá eu pra cá, como se cantava em 68, quando o sucesso carnavalesco era a ingênua marchinha de Paulo Sette e H.Silva (sempre me perguntei quem seria esse H ponto Silva...), para que isso ocorra e para que se tenha a data da festa que permite que qualquer cidadão solte a franga e saia a rebolar pelas ruas e sambódromos da vida, é preciso consultar o equinócio ou aequinoctium (noites iguais), como diriam os versados em latim.
Trocando em miúdos, equinócio é aquele fenômeno astronômico que ocorre na relação da órbita do Sol com a Terra, em que o dia e a noite duram o mesmo tempo, exatamente, doze horas. Acontece duas vezes em um ano, marcando a entrada da primavera, no hemisfério norte, e a entrada do outono, no hemisfério sul. E vice versa.
Pois bem. É esse primeiro equinócio anual que assinala outra data importante, que também não é fixa: a páscoa. Isso porque a páscoa cristã, na verdade, apenas herdou os festejos pagãos que eram feitos quando os povos ancestrais, depois de um inverno de gelo e escassez, se regozijavam com a chegada do equinócio primaveril. E a páscoa, por sua vez (e como todo mundo sabe porque é muito sabido), serve para fixar o carnaval, que vem sete domingos antes dela.
E o que lua do título tem a ver com tudo isso? É que a páscoa ocorre no primeiro domingo de lua cheia depois do primeiro equinócio que, para nós aqui da metade sul da laranja terrestre, coincide com a chegada da estação outonal.
Ora, em 2011, a primeira lua cheia do outono surge tardiamente, no dia oito de abril. É a chamada lua cor de rosa, dos índios da América do Norte, ou a lua do ovo, dos ingleses antigos. Então, é só fazer as contas para compreender porque a Lua é a culpada pelo atraso do começo do ano. O consolo é que a lua continua a ser dos namorados, como diz outra deliciosa marchinha. Seja qual for o mês em que o trêfego satélite de muitos apelidos apareça.
(publicado no jornal A Gazeta - Vitória, ES, em 06 março 2011)
Sim. A Internet é legal. E, nestes tempos que muitos chamam de pós-modernos, a internet mudou nossas vidas. A gente precisa de uma informação, basta dar um clique e ploft! Num passe de mágica, aparece aquilo que só estaria disponível com buscas e buscas em revistas, em livros e alfarrábios, e, por vezes, depois de telefonemas sem fim, algumas entrevistas e muita conversação.
É óbvio ululante (qualquer criança sabe disso) que todo cuidado nesse terreno é pouco. Muitas das facilidades que a telinha oferece são apócrifas. Acabam causando dano, quando nada, vexame, ao sujeito que, credulamente, nelas acreditou. Mas não faço estas mal traçadas linhas para louvar os méritos desse reino virtual encantado ou desancar seus perigos e possíveis contradições. Este prólogo vem apenas para introduzir o assunto de hoje que versa sobre algumas senhoras antigas, damas cheias de distinção e graça, que viveram e morreram no planeta verde-mar-azul-céu da Barra.
Em minha infância mais tenra, tive o privilégio de conhecer algumas que habitavam aquele universo mágico, perfumado a sal e povoado de beijus, de peixes, de sargaços e de estrelas celestes e de algas marinhas.
Começando o rol, me vêm rapidamente à memória aquelas a quem todos chamavam de dona, como se o termo de respeitabilidade fosse já um prenome colado em seus nomes de sonoridade doméstica. Dona Mariquinha Tatu, professora de primeiras letras de muitas donzelas de antigamente; Dona Marica Acácio, a parteira mais requisitada da cidadezinha; Dona Benga com seu longo vestido e seu coque bem amarradinho na nuca; Dona Hermosa, que morava em uma pequena e distante elevação de areia ali perto da praia.
Eu me lembro, também, de uma profusão de dindinhas e de tias, como Dindinha Cecina e Tia Binoca. Criaturas magras, docemente encurvadas, cheias de modéstia e de delicadezas que diziam ladainhas, rezavam o terço ou que sabiam benzer, esconjurando o mau olhado com folhas de alecrim ou manejando agulhas no ar, para coser osso rendido, carne aberta e nervo torcido.
Muitas dessas mulheres, um dia, caminharam até a cacimba do Borges para buscar a água puríssima que deitavam na talha de barro da casa; outras cultivaram roseiras, pitangueiras, jambeiros, mangabeiras, craveiros e pés de jasmins que abasteciam de flores e doçura os altares da igreja e as bocas de crianças que perambulavam descalças pelas ruazinhas cobertas de areia.
Lembradas nominalmente ou anônimas, muito dignas em seus cabelos brancos e em sua simplicidade, todas povoam as minhas lembranças. È claro que, na Internet, por mais que escarafunche em sites de busca, ninguém poderá encontrá-las. Não há Google algum que registre a passagem destas encantadoras damas barrenses na terra. Elas existem fora do mapa usual das coisas unívocas e de finalidades precisas. Existem apenas agora, quando alguém lendo esta crônica partilha este momento breve e exato das recordações.
(publicado no jornal A Gazeta - Vitória, ES, em 20 fevereiro 2011)
Estava eu a ler Hoffmann e de repente pulou uma frase da página: “Creio que através dos fenômenos anormais, a natureza nos permite dar uma olhada em seus mais terríveis abismos”. E antes que alguém me indague por que cargas d’ água eu estava a ler Hoffmann, justamente quando faz luminosa manhã, tanta luz, tanto sol, tanto azul, tanta vida lá fora, aqui dentro sempre e como uma onda no mar, como cantam a maravilhosa Bethânia e o arisco Lulu, ou melhor, antes que alguém me indague por que estava eu a ler Hoffmann, em pleno verão, neste abençoado cantinho do Espírito Santo onde consegui me esconder, quero explicar que foi por uma dessas trapaças do acaso.
Em primeiro lugar, como ninguém vive só de highbrow - palavrinha que meu estimado Heinz Von Cramer costuma utilizar em substituição à “alta cultura”, sobretudo depois que já bebeu meia dúzia de caipirinhas no Rabo de Peixe - em primeiro lugar, quero dizer que Hoffmann é aquele sujeito que adorava Mozart e que inventou malucos-beleza como Giglio, que amava a inalcançável princesa Brambilla, e Natanael que enlouqueceu de amor por Olímpia, a boneca mais cheia de charme que qualquer moça de carne e osso.
Mas, acho que estou complicando mais de que explicando. A essa altura, vou compreender se vocês resolverem deixar de lado esta crônica e partir para atividades melhor proveitosas. Não façam cerimônia se quiserem largar o jornal e ir tomar uma água de coco, no quiosque da praia, ou uma cervejinha gelada, no boteco da esquina. O que acontecerá, fatalmente, se esta prosa não tomar outro rumo. A não ser que esteja eu sendo lida por algum psicanalista ou algum escritor. Escritores e psicanalistas são criaturas esquisitas. São capazes de passar horas e horas pensando em um conto sobre um gato que foi testemunha de um crime, e que, pouco a pouco, levará o assassino à total perdição. Faço aqui minha modesta homenagem a Tião Lirio, contista que entende, igualmente, da psique e da literatura de Poe.
Voltando ao acaso e às palavras de Hoffmann, o primeiro me surpreendeu quando abri uma caixa, que há muito tempo não abria, e dei de cara com as segundas, que há muito tempo não lia. Com o risco de enfrentar o anátema dos hoffmannianos eruditos, confesso que, Imediatamente, tomei essas últimas por oráculo, associando-as às terríveis catástrofes que estão ocorrendo, no Brasil e no mundo, neste mortífero verão. Arrisco dizer que escutei Gaia a nos advertir pelos nossos pecados ambientais e a lembrar aos humanos, como William, o bardo, que “a vida não passa de uma história cheia de som e fúria contada por um louco”.
Sei que essa mistura parece doideira de intelectual. Porém, olhem que naquela caixa também estava “Nadja”, de André Breton, que me escuso por não comentar, amadas e amados, senão não garanto aonde vai parar toda esta tortuosa e complicada peroração.
(publicado no jornal A Gazeta - Vitória, ES, em 23 de janeiro de 2011)
Os gatos e eu somos como duas metades de uma laranja. Ou melhor, somos como o Yin e Yang, os pólos da energia cíclica de todo o universo. Diferentes, porém complementares. E enroscados um no outro, como demonstrou Júlio Cortázar, em Rayuela, o romance de uma geração que jogava com quadrados de giz e atirava ao Céu as pedras das revoluções.
O difícil é acomodar meu Yang com o Yin de um gato, ou vice-versa, pois tudo depende da fase da lua, da abertura exata dos lírios, da passagem de uma formiga, do crescimento das ervas ou do fato que os gatos walks by himself - andam por si mesmo - como disse Rudyard Kipling, aquele autor que até hoje se revira no túmulo, a cada milionésima vez que alguém declama Se... , o seu manjadíssimo poema
No entanto, nada é impossível às conjunções astrais, como disse, a seu turno, Madame Soledade, a vidente, que nunca escreveu uma linha sequer e, por essa razão, está livre de indébitas apropriações e de remorsos post-mortem, mas não de inconveniências como a que, agora, esta pseudocronista comete.
Por isso, acredito que Mercúrio estava em sintonia com Júpiter, no momento em que, posta em sossego, como a linda Inês de Camões (hoje estou dada àquilo de que eu muito gosto, ou seja, estou a lambuzar-me literariamente com as citações), no momento em que, posta em sossego, eu estava naquele pequeno jardim feito de potes velhos e rachados por onde saiam folhagens de uns pés de gerânios espremidos entre muros repletos de musgo, sem nada fazer a não ser olhar, com deleite, uma nesga de azul assombroso, nesse vilarejo longínquo, quieto e estrangeiro, onde me ancorei como um velho navio, neste fim de um ano e começo de outro, para fugir de festas, festinhas e festividades.
Pois foi quando vi um gato. Sujo e maltratado. Todo negro. Coberto, porém, com uma fuligem cinzenta que lhe forrava algumas escoriações no dorso e nas patas, servindo de atestado à sua vida, que não é fácil viver em liberdade total.
Imediatamente, dei-lhe o nome de Pantaleão. A intenção - como já descobriram alguns de vocês - era homenagear o personagem de Mario Vargas Llosa, em Pantaleão e as visitadoras. Afinal, devemos o luxo de um prêmio Nobel ao escritor peruano, que, ainda por cima, escancarou, de forma mais que irônica, as mazelas políticas e sociais da América Latina.
Pantaleão se aproximou pelo caminhozinho de pedra, como se adivinhasse minha cumplicidade com a raça dos felinos. E, soltando um miado, deu-me a entender que se eu lhe oferecesse um pires de leite, ele teria condescendência em bebê-lo. Depois, foi entrando na casa, com toda dignidade, e se acomodou no tapete, ao pé do sofá. Cheguei a escutar ronronados.
À noite, ele sumiu, sem aviso. Foi-se às suas andanças, de telhado em telhado. Voltou pela manhã. E recomeçamos as nossas cerimônias discretas. Sem pulinhos excitados. Sem manifestações ruidosas. Sem desnecessárias mesuras. Sem untuosos agradecimentos.
Assim foi durante o tempo em que estive tão longe, fora desse mundinho exaurido, distante da mesmice do cotidiano.
Mas, ontem, foi preciso voltar. Enrodilhado no alto de uma pilastra, Pantaleão me viu partir. Quero crer quer ele entendia minha partida e a aceitava, guardando-me por sete vidas em seu coração. Elegantemente. Silenciosamente. Como convém aos amores, aos afetos e aos gatos.
(publicado no jornal A Gazeta - Vitória, ES, em 09 janeiro 2011)
Da necessidade de retrospectivas, neste ano que se finda, me vem um sentimento que o simpático tonto que foi Lévy-Bruhl teria taxado de pré-lógico. Isso, claro, antes que os demais antropólogos caíssem de pau em cima do coleguinha. Eu falo da suspeita que vem me assaltando, acerca da existência de uma raiz arcaica, segundo a qual uma identidade se faz entre fenômenos e coisas distantes, por mais que isso pareça escandaloso ao intelecto.
Nós, humanos, baseamos nossas mensurabilidades em meridianos e contadores Geiser, o que nos faz pensar que tudo pode ser atribuído a uma causa e efeito. O pior é quando, a partir daí, uma paranóia discreta começa a se apoderar de nossas almas frágeis e cativas daquela insegurança que cultivamos desde os tempos das cavernas em que nos escondíamos dos pterodátilos. E qualquer dá cá aquela palha começa a botar caraminholas em nossa cabeça. E dá-lhes moinhos de vento e teorias da conspiração. Então, tudo se passa como se o mundo inteiro tivesse a obrigação de estar pensando apenas em nós, vinte a quatro horas por dia, e a cada minuto estivesse a nos preparar armadilhas. Ora, o mundo tem mais o que fazer, nem que seja girar em seu eixo. E de tão ocupado com suas próprias complicações, não está nem aí para as criaturas que pulam excitadamente de lá para cá sobre ele, como Boris Vian demonstrou, com humor negro, em “L’ Écume des Jours”.
A minha suspeita é que se dermos um tempo ao pobre Narciso que somos, vamos entender melhor que, em vez dessa torrente de causalidades (que são as leis que juramos que existem contra ou a favor de nós), o que há é só a espuma da casualidade (que é a liberdade do jogo do acaso, no qual não passamos de descartáveis brinquedos). O melhor é seguir o conselho de Fred Astaire “let yourself go” .
Essas considerações surgem quando me dou conta de que o mais importante fato que observei, em 2010, foi o gesto de uma criança que se abaixou para acarinhar e alimentar, com um pedaço de seu sanduíche, um filhote de gato que parecia desgarrado da mãe e miava encostado à parede de um prédio tão cheio de arrogância que até se poderia pensar que foi feito para durar pela eternidade. A menina (era uma menina) vinha pela avenida cheia de ônibus, carros, executivos de terno, saltitantes moçoilas, senhoras outro tanto, catadores de lixo, mendigos, skatistas e toda demais espécie de gente. E, quando ela se debruçou em direção ao animalzinho, seu gesto tinha uma leveza de matar de inveja qualquer “prima ballerina” do Lago dos Cisnes.
Não sei por quê. Mas entendi que havia um sincronismo entre aquela delicadeza infantil, perpetrada na esquina de uma megalometrópole, e a beleza de um dia passado em Katmandu. Era como se eu fosse aquele gatinho assustado. E as montanhas altas, frias e azuis fossem as mensageiras que estavam ali para me confortar com a descoberta de um universo de simplicidade e de compaixão, embora esse universo não passasse de um naco de pão mordiscado por mim em frente a uma stupa avermelhada, em Patan.
E quem pode saber? O onde é um peixe secreto. Ele nada nas águas do Cosmo. De repente, a dinâmica da interexistência junta, em um único lugar, o gatinho perdido que talvez seja a viajante ao Nepal que talvez seja a explosão de uma estrela que talvez seja o nascimento dos deuses que talvez seja a destruição de Cartago que talvez seja o ouro alquímico que talvez seja o eclipse da Lua que talvez seja o terremoto no Haiti que talvez seja o cão de meu vizinho que talvez seja a moça que passa pela praia da Barra que talvez seja uma borboleta da China que talvez seja o afago que faço a vocês neste domingo último do ano, amadas e amados. E que talvez seja tudo isso de uma só vez.
(publicado no jornal A Gazeta - Vitória, ES, em 26 dezembro 2010)
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Eu vou parecer uma ingrata se não agradecer, mais uma vez, a generosidade e a delicadeza contidas em tantas mensagens dos leitores que me escreveram durante todo este ano, por conta das crônicas que rabisco para este jornal. Em especial, agradeço as palavras gentis de todas e de todos que se debruçaram sobre a última crônica que fiz sobre meu amor pela Barra. Como sabem, anualmente, quando a festa da Conceição vai se aproximando, repito a homenagem escrita que faço à minha cidade, seja aqui neste espaço ou em outros demais. É meu deleite ver que tanta gente se lembra desse meu costume, ano após ano, e, sobretudo, que tanta gente partilha comigo tal sentimento com amoroso carinho. Acrescento que aquela era uma festa de singela beleza. E, a cada vez que dela me lembro, me vem um cheiro de roupa limpa, alecrim e sabão.
Eu confesso que não vou me importar se alguém me acusar de ser repetitiva. Nem um tilico tico. Era assim que Seu Bacurau dizia. Como sei que pouca gente sabe quem foi Seu Bacurau, eu explico que ele era o dono de uma vendinha aonde o povo da roça vinha comprar tamancos. A vendinha de Seu Bacurau cheirava a rapadura, amendoim torrado, sal e fumo de cocha e tinha um lampião que, à noitinha, jogava na parede uns reflexos acobreados de luz.
Como vêem, estou sempre falando sobre essas miudezas barrenses que, desde menina, fui juntando no baú da memória e que, hoje, distribuo a quem interessar. Faço isso porque é de meu gosto e me regala a vida. Como disse a divina Clarice Lispector: “Gosto de um modo carinhoso daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vôo e cai sem graça no chão".
Ainda bem que nunca ninguém reclamou desta minha mania por nicas, tutaméias e nonadas. Botem a culpa no Rosa, o João Guimarães, que foi ele quem me ensinou as delícias de tais pequenezas e a considerar, com o maior respeito, as ninhas, inânias, ossos-de - borboleta, mexinflórios, bagas, chorumelas, quase-nadas e quiquiriquis. E também botem a culpa na Barra, que eu nem escreveria, talvez, se não fosse nascida naquele formoso e abençoado lugar.
Mas não quero que pensem que esta é uma crônica nostálgica. Ah, não é não! Afinal, o que é uma crônica senão um vestígio, um sopro, um pastel recheado de vento? É verdade que algumas dessas coisinhas escritas, que brotam da alma e escapam pela ponta dos dedos, vão ganhando corpo na tela do computador e, por vezes, se enchem de pompa, ficam cheias de si e acreditam que estão destinadas à glória e à grandeza. Quem sabe quantas bobagens como essas eu já cometi?
Contudo qualquer cronista sabe que trabalha no fio da impermanência e da precariedade, como um equilibrista. Qualquer cronista sabe que nem sequer imagina o que amanhã lhe virá à cabeça, à existência ou ao papel. E aí está a graça!
De fato, uma crônica é feita para ser esquecida. É uma irmã volúvel do efêmero. Amadas e amados, não levem tanto a sério palavras escritas para serem consumidas naquelas horas vagas que ficam antes ou depois do café.
(publicado no jornal A Gazeta - Vitória, ES, em 12 dezembro 2010)
Quem me dera poder dizer, hoje, aquele versinho que eu dizia nos tempos em que era menina: acordei de madrugada, fui varrer a Conceição e encontrei Nossa Senhora com seu raminho na mão... É que aí vem a festa. Aí vem a festa da padroeira. Aí vem a festa da padroeira da Barra.E eu aqui, pobre exilada, em plagas outras nas quais (talvez por destino, talvez por desaviso), um dia, me meti. O que eu queria mesmo era estar em minha cidadezinha, retrato na parede que olho desoladamente, com os olhos roídos de melancolia. Retrato na parede que dói, igualzinho àquele da Itabira de Carlos Drummond de Andrade, o poeta maior.
Tem gente que sabe de tudo. Tem gente que fala de tudo. Tem gente que conhece tudo. Eu não. Só sei de fragilidades miúdas. Só falo de diminutas delicadezas. Só conheço bobaginhas tolas que o coração guarda, e que ficam dentro dele, sem alarde, bem quietas. Por isso, os feitos gloriosos me cansam; as luzes dos holofotes me deixam vazia e um pouco enjoada. Mas, em compensação, tenho a rosa dos ventos de minha terra gravada na palma da mão. De vez em quando, se estou muito perdida, abro a mão, com suave doçura. Então, a rosa dos ventos de minha terra me aponta o caminho.
Ao sul, está o pontal, onde o Cricaré deságua entre a Bugia e a vegetação. Não importa que já não seja o mesmo local, estreito e profundo, por onde os navios entravam, na maré alta. Não importa que já não seja a mesma Bugia, feita de casas de pescadores cobertas de palha, de coqueiros e de manguezais.
Ao norte, está a Guaxindiba, cheia de raízes que são como ossos descarnados do mangue ao sol. Um pouco mais longe, se vê Itaúnas. Não aquela Itaúnas de agora que se rendeu aos turistas que podem comprar fatias ociosas de tempo, tanto nela, quanto em qualquer um dos recantos “inesquecíveis”, “exóticos” e outros adjetivos que não escondem o sabor mercantil das propagandas e nem a mesmice dos lugares comuns. Mas, sim, aquela outra Itaúnas perdida, em que nasceu Manoel Cunha, meu avô. A vila que dorme bem debaixo das dunas. A povoação que repousa no fundo de brancas montanhas de areia, entre cacos coloridos de vidro, moringas de barro, lápides de cemitério, alicerces, ruínas e esquecimento.
No oeste, fica a morada da estrela da tarde que pinga do céu como um brinco de luz e lambe o corpo molhado e sinuoso do rio. De lá, descia a canoa com a imagem de Bino, o irmoneiro, para ser levada pelas ruas coberta de fitas e flores, anelada nos braços de uma devota, ao som do tambor, dos cantes e canzás.
No leste, fica a praia aberta até a linha azul do horizonte, sem reentrâncias, sem pedras. E fica o mar. E o vento. E as ondas da cor da esmeralda. E a espuma das ondas. E o gosto do sal. E os peixes e as anêmonas e as conchas e as algas e todas as circunstâncias marinhas.
Estas são as coordenadas que trago na palma da mão e que refletem a minha terra em mim, como uma lua na água. São coisinhas poucas. São coisas pequenas Mas têm algo de aliança secreta que ninguém, por mais que tente, nunca poderá corromper, desfazer ou tocar.
(Publicado no jornal A Gazeta - Vitória, ES, em 28 nov.2010)
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