Como todos vocês, eu também estou arrasada com a queda do vôo 477 da Air France. Muito mais quando as especulações se alastram e deixam no ar que uma diminuta pecinha, um dos sensores que servia para medir a velocidade, congelou-se dentro da tempestade que apanhou o Airbus. Isso talvez tenha sido uma das causas que contribuíram para aquele acidente cruel - dizem os entendidos.
Dizem, também, que os fabricantes já haviam emitido, em 2007, uma recomendação sobre a necessidade de mudança dos tais instrumentos de medição nos Airbus 330 e 340. Mas que esta substituição não foi feita, pois não era uma obrigação. Mas, em matéria tão delicada quanto a segurança das criaturas, a mais leve suspeita de erro ou de falha não deveria ser, de pronto, sanada?
É sempre assim. Depois que as catástrofes acontecem, aparecem os pequenos podres detalhes que se revelam chagas terríveis, as quais, com uns poucos cuidados, poderiam ter sido evitadas. Pelo menos para que, nós, os pobres mortais que orbitamos em torno das decisões dos poderosos do mundo, não fiquemos com a impressão de que estamos vivendo em um universo de enganos e de suposições, onde a vida de muitos não vale os amealhados tostões que engordam as contas de poucos.
Quem sabe se, apesar do terror, algumas dessas reflexões não passaram pela mente daqueles passageiros que estavam presos dentro do avião, em seus últimos instantes? Fico imaginando o desespero, a confusão e o medo que tomou conta deles, mergulhados no escuro, subindo e descendo desordenadamente, sem controle, até o momento em que tudo explodiu ou mergulhou de vez naquela zona distante de imensidão oceânica.
Por certo, o que nos resta é a desolação sem consolo. Além da indignação contra alguns sujeitos que estão se aproveitando desse fato tão horrível para enviar e-mails com falsas notícias de que alguns sobreviventes foram achados vivos no mar. Você vai, fica todo animado e feliz e abre os tais e-mails que, afinal, não passam de portadores de vírus que acessam as contas bancárias e os dados de quem os recebe. É triste que haja quem se aproveite da dor e especule com ela, meus preciosos.
Em uma tarde de final de verão de 2009, participei do "Maria Maria" que Simone Devens levou ao Teatro do Sesi, em Jardim da Penha. Não direi que foi uma experiência tranquila. A cada vez que subo em um palco, eu me ponho a tremer. A performance naufragaria, se a minha alma não fosse tão forte, como disse Camões (ou será que não disse?). Nisso, sou igual ao meu Mestre Guilherme, que sempre se queixava dessa mesma timidez estranha. De fato, sou uma criatura das palavras e amo as quietudes, embora muita gente imagine o contrário, pois disfarço, com alacridade postiça, este recolhimento interior aprendido diante das lonjuras do mar, nas praias saudosas da Barra. Mas, deixemos tais volubilidades plausíveis do charme. Retornemos ao espetáculo.
Para começar, tinha um mundo de gente lotando as cadeiras. Confesso que bateu a emoção, quando vi e ouvi as criaturas, no palco. A revelação genial de atriz foi Margareth Maia. Teve ainda as evoluções deliciosas das bailarinas Dida e Bianca; o auxílio luxuoso de Sagaz (Suspeitos na Mira); a sensibilidade do maestro Paulo Sodré com o seu competente conjunto de músicos; os meninos do backing vocal, Marcio, Fran e Gardênia. Além de tantas outras pessoas que se envolveram com toda a produção. Mas é, sobretudo, às cantoras que devo a fonte de meu enlevamento.
Tenho duas coisas a explicar. Primeiro: o ato de cantar requer que se esqueça do resto do corpo, ou seja, o resto do corpo acompanha as vibrações da voz. Segundo: o nome teatro não se refere, apenas, à encenação. Teatro é aquilo que nos sobra do ato de viver – diz o cineasta Manoel de Oliveira. Assim, a vida, de tão impalpável, nem existe. O que existe da vida é a sua representação.
A partir dessas duas ideias, digo que o que vibrava, concentrado na voz, era o corpo de cada uma daquelas cantoras; e que cada uma daquelas cantoras, naquele momento, era a representação viva de sua própria energia. Talvez, por isso, elas brilhavam como pequenas chamas, no palco. Andréa Ramos, Ava Araújo, Dani Moraes, Dennise Pontes, Dorkas Nunes, Idalina Dornellas, Jully Victória, Márcia Chagas, Rita Dessaune e Vera da Matta. Cada uma em seu estilo, dando existência a sambas famosos ou a sambas de compositores do Espírito Santo.
Essas bravas mulheres eram como aves canoras a lembrar que nós, capixabas, desconhecemos (ou fingimos desconhecer) o que temos de tão especial em nosso modo cultural de ser
Dia desses, numa dessas viagens malucas e sem muita razão que faço pelo país afora, peguei um avião e lá fui voando nas asas, não da Panair, como cantava o jingle famoso, mas da TAM. Lá fui eu voando, rumo a um evento acadêmico desses em que ainda me envolvo sabe Deus o porquê, quando minha delícia era ficar quietinha em um lugar qualquer desse nosso abençoado solo espiritossantense, de preferência à beira do mar, como não é segredo, pois já muito boatei, e bem o sabem os leitores que são muito sabidos.
Foi entrar, arrumar a bagagem, sentar e abrir uma revistinha fininha (não a principal, a bilíngüe, que vem cheia de caras e bocas de gente famosa e mais paisagens de cartões postais e várias outras atrações para embevecer os turistas), como eu ia dizendo (e hoje estou cheia de voltas e viravoltas), foi abrir a revistinha fininha, que é simpática e se chama “Almanaque Brasil”, para dar de cara com um texto que tinha por título: “Vitória da Conquista - Espírito Santo” (e a gente imaginava que a dita cidade ficava na Bahia!).
Gritei: “Iá!”. Como boa capixaba. Bem alto. Todos os passageiros me olharam. Alguns divertidos; uns com espanto; outros com uma pontinha de reprovação. Mal sabia eu que o mais inusitado ainda estava por acontecer.
É que, na seqüência daquele espantoso imbroglio geográfico, vinha um histórico da nossa panela de barro. Falava-se da tradição, do formato, da colheita do material, da tintura de casca de mangue, do trabalho, da família das paneleiras etc. Tudo bem explicado, tudo bem ilustrado, tudo bem detalhado.
Não faltava nem mesmo notícia da sua serventia para cozinhar. Mas não pensem vocês que é para fazer a moqueca. Ah, não! Segundo o memorável panfleto de bordo da aeronave, a famosa panela serve é para “deixar o caldo do feijão mais encorpado e a farofa mais soltinha”.
Depois dessa, enfiei a revista no bolsão da poltrona da frente, junto ao saco de plástico ali depositado com a finalidade de colher o resultado do desconforto daqueles que enjoam no ar. Achei que era o lugar mais aconselhável para ela, naquele momento.Virei a cabeça para a janelinha e pus-me a observar o capricho das nuvens. No que fiz muito melhor.
Não vai faltar quem diga: ah, ela está enganada, não é o “quarto” é o “homem das neves”. Sinto desapontá-los, meus queridos entendidos em Yétis, que estão prontos a me explicar que essa é a denominação daqueles seres de dois metros de altura, que andam debaixo de volumosa pelugem nas brancuras geladas dos confins do Himalaia. Sinto desapontá-los. Mas, não foi dessa vez ainda que me pegaram no erro, como se pega um bobo na casca do ovo.
O que quero mesmo é falar do aposento em que um programa de tevê resolveu dostoievskianamente trancafiar “de castigo” (sem que o crime fosse enunciado), algumas daquelas criaturas que, por um pouco de notoriedade e um montão de dinheiro, andam se engalfinhando, fazendo um espetáculo de mau caratismo, baixarias, exibicionismo, vexames, contorções corporais e otras cositas, tudo devidamente confeitado por risos e lágrimas, pieguices sem fim e bobas expressões de encanto diante de guloseimas, festinhas, quimeras do paraíso e decorações duvidosas.
Alguns vão dizer que o epíteto de abominável é muito severo para definir aquela cela, tão limpa, tão alva, que uma mosca se destacaria nela com facilidade; tão alcochoada, que os castigados podem dar com a cabeça nas paredes à vontade, “caso eles enlouqueçam”, como disse uma das assaz saltitantes senhoritas que participam da turma. Outros vão alegar que se trata de um jogo consentido. Outros, ainda, argumentarão que a esperança de botar a mão na grana é tão forte que ameniza os traumas que, porventura, alguém venha a sentir.
Pois eu não retiro o adjetivo, meus preciosos. Podem me chamar de ranzinza ou sei mais lá o quê. A visão daqueles três moços emparedados entre fofas alcatifas como enganosas nuvens, expostos ao voyeurismo do público como ratos enjaulados, vestidos de branco como falsos anjos de um comercial, deixou-me envergonhada e constrita.
Declaro que, a meus olhos de espanto, aquela cena por acaso vista entre dois zapeados de controle remoto é uma forma elementar de cinismo, é uma exibição de violência, é, com todas as letras, uma abominação.
Faz tempo que não venho ao blog. Nem parece que tantas alegrias eu arranco daqui! É muita gente legal e carinhosa que o frequenta e que me deixa mensagens afetuosas e confortadoras. Mas, hoje, é especial e não posso deixar de blogar, na esperança de que alguém me encontre, como me encontrou o querido Carlos Henrique Gobbi que me acordou, neste 14 de fevereiro de 2009, com a lembrança esplendorosa da canção Age of Aquarius, que, há quarenta anos, marcou a minha vida:
"When the Moon is in the seventh house
and Jupiter aligns with Mars.
Then peace will guide the planets
and love will steer the stars "
" Quando a Lua estiver na sétima casa
e Jupiter se alinhar com Marte,
Então a paz guiará os planetas
e o amor varrerá as estrelas " .
Incrivelmente, isso está acontecendo, justamente neste dia. A lua em Libra entra na sétima casa dos relacionamentos; Jupiter e Marte estão alinhados no signo de Aquarius, na décima segunda casa da transformação.
Por isso, estou repartindo essa coincidência (ou premonição?), desejando "Vida longa e prosperidade", como diz Sr Spock, o vulcano orelhudo de Star Trek, ou (para os que fazem questão do tempero erudito) lembrando Shakespeare: "Há mais coisa entre o céu e a terra de que sonha nossa inútil, tola, vaidosa e vã filosofia".
Vejam o mapa astral de 14/02/09, com as energias de Aquarius na décima segunda casa. Júpiter, o planeta da expansão, e Marte, o planeta da energia estarão alinhados com o objetivo mais elevado. A presença de Quíron, o curador ferido, nos oferece a oportunidade de curar os fatos que nos separaram durante tanto tempo de nós mesmos e do todo.
Netuno enfatiza os movimentos humanitários coletivos e a co-criação da justiça social.
A presença do SOL ilumina todo este alinhamento especial.
Mercúrio, também na décima segunda casa, porém em Capricórnio, se alinha com Plutão que significa Transformação para se comunicar e ancorar a MUDANÇA através de nossas estruturas globais e instituições.
A Lua em Libra na sétima casa enfatiza o início de relacionamentos harmoniosos.
Venus em Áries na primeira casa energiza e dá Poder à co-criatividade e ao dinamismo.
Saturno, o grande mestre do trabalho em oposição à Urano, o desperto inesperado, sugere uma série de confrontações dos velhos paradigmas que não são mais sustentados, entregando-se ao novo paradigma com novas esperanças. Sua colocação entre Virgem e Peixes traz altruísmo prático e inspiração visionária nesta transição.
Depois de amanhã é aniversário de morte de Julio Cortázar.
Deixo abaixo uma crônica de saudade e saudação a esse que foi o escritor de minha vida, quando eu ainda era jovem, cheia de risos e sonhos, e morava na bela ilha de Vitória . Nunca vou esquecer o encantamento com que li Rayuela!
PARA JULIO, O MAIOR DOS CRONÓPIOS
Falo de um tempo distante e já em cinza, quando éramos vários e vivíamos o que digo aqui, nesta crônica, que começa assim como um trecho de Divertimento. Porque esta é uma homenagem que faço a esse cronópio, morto em um dia doze de fevereiro de mil novecentos e oitenta e quatro, portanto há vinte e quatro anos atrás.
Para os meus adoráveis leitores de hoje que não sabem do que estou falando, explico: cronópios são criaturas inventadas pelo próprio escritor para fazer contraste com os famas que ele também inventou. Os cronópios são sonhadores, confusos, criativos e vivem da alegria. Os famas são práticos, muito organizados e mantêm sempre um ar sério de comedimento.”Os famas, para conservar suas lembranças, tratam de embalsamá-las da seguinte forma: depois de fixada a lembrança com cabelos e sinais, embrulham-na dos pés à cabeça num lençol preto e a colocam contra a parede da sala, com um cartãozinho que diz: ‘Excursão a Quilmes’, ou: ‘Frank Sinatra’. Os cronópios, ao contrário, esses seres desordenados e frouxos, deixam as lembranças soltas pela casa, entre gritos alegres, e andam no meio delas e quando passa alguma correndo, acariciam-na com suavidade e lhe dizem: ‘Não vai se machucar’, e também: ‘Cuidado com os degraus’. É por isso que as casas dos famas são arrumadas e silenciosas, enquanto nas dos cronópios há grande agitação e portas que batem”.
Nós, que amávamos Cortazar, gostávamos de nos identificar aos cronópios. O que não era o mais conveniente, por vezes, quando nos esquecíamos do lado seguro da vida e, de repente, um de nós podia se dar muito mal. Para contentamento dos famas que, soturnamente, diziam: “Eu bem que avisei!”. Mas, o que importava? Andávamos por esta cidade, entrando nos bares para beber gim e vodca e falar de contos e poemas e sonhar e ficar de bobeira e outras inutilidades que faziam o escândalo dos famas que entravam nos bares apenas para tomar um aperitivo, abanavam a cabeça ao passarem por nós e nos reprovavam com comiseração. Quando o sol nascia e os famas acordavam em suas caminhas, refrescados e prontos, nós vagávamos ainda pelos bairros ou pelas escadarias e ruas do centro em busca de um café para curar a bebedeira, a nostalgia, as dores conquistadas e os amores perdidos.
Mas, isso foi nos anos oitenta, em um tempo distante e já em cinza, quando éramos vários e vivíamos, aqui, o que digo. Razão pela qual eu assino esta crônica de saudade para Júlio Cortazar em nome de todos os cronópios que habitam ou habitaram esta ilha. Contando comigo, que eu saiba, Tião Lyrio, Fernando Tatagiba, Reinaldo Santos Neves, Adilson Vilaça, Chico Grijó, Deni Gomes, Marcos Tavares, Debson Afonso, Miguel Marvila, entre outros e outros que a mim vão perdoar a memória cansada, o oblívio e o esquecimento.
Escrevi isso em um finzinho de tarde, em janeiro, olhando para o imenso maciço central de Vitória, prestes a deixar o local ensolarado onde passei minhas brevíssimas férias e retornar à cinzenta cidade de São Paulo, onde trabalho e moro.
A MUDANÇA
Agora, que outro verão está em curso, é possível ver a mudança.Antes, quero dizer que se trata de traçar uma tangente, indo desde a janela até o vértice invertido de um ângulo formado pelo aclive das rochas em direção aos dois picos, um dos quais sustenta um agulheiro de antenas voltadas para o céu. Dessa forma, estando a sudoeste e olhando para as encostas do maciço central, lá está o tablado de grama chapado no flanco da asa esquerda, enquanto que o topo da asa direito é feito de uma pedra quase nua, faiscante debaixo do sol.
Até bem poucos anos, quase nada se via da presença de humanos, a não ser algumas pipas atadas a mãos de meninos por fios e o fato de que uma cinta de casas se estabelecia na orla da vegetação.
Como é que se deu aquela sucessão medonha de queimadas, rolos de fumaça, clareiras abertas, fieiras clandestinas de postes e mais uma cerca e mais uma parede e mais uma construção de tijolos de modo que o casario, precário e mal distribuído, já quase se encosta aos cumes?
Os bem intencionados dirão que a cidade incha e vai empurrando os menos validos para o abrigo dos morros, fermentando ninhos de muitas faltas e pobrezas e o que se há de fazer, minha senhora, se as pessoas precisam morar e dormir e ocupar o espaço da montanha é o único modo disso se resolver, e se há alguma vigilância sobre o que sobrou da mata atlântica sobre esses rochedos, não falta quem a drible, pois driblar é próprio de “nosotros”, como provam os pés do Ronaldinho Gaúcho e a consagrada lei do “jeitinho”.
Depois de coisas assim, nada resta, a argumentar.
O consolo é mirar a beleza dessa imensa massa de pedra lavada pelos ventos que serviu de abrigo e ancoragem para nossos ancestrais; é observá-la enquanto a luz vai mudando, passando de branca e dura, como é ao meio-dia, para o dourado macio da tarde, até que se transforma em uma poeira cinzenta e logo as lâmpadas clandestinas começam a se destacar dentro do matagal e, em breve, surgem estrelas no veludo negro do céu e dos lados da Fonte Grande e da Piedade nos chegam pequenos vislumbres noturnos, como latidos de cães, risos de criança, baterias de uma escola de samba e, quando tudo silencia, aquele casal de pássaros brancos que atravessa a madrugada, serenamente voando sobre esta ilha que um dia foi do mel.
Este foi meu último escrito em 2007. Deixo-o aqui pra quem quiser ler:
INSTRUÇÕES PARA TROCAR DE ANO
Acontece que a troca de ano é bem curta. Tome todo cuidado. Se chover, não deixe de observar a chuva. Tem chuva de pingos que caem como massa de panqueca e cheiram à baunilha; tem chuva que parece uma cortina oblíqua e faz um barulhinho de risada engraçado. Veja atentamente, pois algumas nem chegam a pousar e, de tão leves, levitam a muitos metros do chão, acabando-se em uma espécie de poeira de água. Em compensação, outras despencam com plofts e plafts, enchendo as valetas que, imediatamente, se transformam em riachos.
E se não chover, vale espiar aquilo que anda no céu e que, astuciosamente, se disfarça com o nome de nuvem, quando a gente bem sabe que é uma caravela, um urso de patas redondas, um cavalo empinado ou até mesmo a cara de um homem que fuma cachimbo.
Caso vá haver ceia, arrume os talheres na mesa, fazendo o favor de prestar atenção, sobretudo, nas pontas dos garfos, as quais devem ser esfregadas com a maior gentileza até que comecem a latejar meigamente. Também preste atenção nas formigas que rondam como pequenos fogos cinzentos, palpitando de expectativas e, como quem não quer nada, espalhe algumas migalhas de torta com açúcar pelo caminho delas. Cinco gérberas vermelhas postas em um vaso de vidro em um canto da sala não ficam nada mal, porém cuide de que estejam viradas para o lado do oeste, que é de onde vêm as abelhas.
Deixe tudo arranjado. Depois passe o resto do dia aprendendo a cantar. Experimente emitir uma nota e se ouvir um marulho de ondas quebrando na praia, ao mesmo tempo em que duas crianças correm afundando os pés na areia, você está pronto a ingressar no coro dos anjos que, a cada passagem de ano, se acocoram nas torres de televisão no alto do maciço central.
Mais tarde, você pode chorar um pouquinho. Antes, pense em um camelo trazido da imensidão do deserto e posto em um zoológico de uma grande cidade. Pense que ele se deita naquele quadrado entre grades, come um pouco de capim e vai fechando os olhos, enquanto o sol se põe. A seguir, cubra o rosto com delicadeza com as palmas das mãos voltadas para dentro e deixe que as lágrimas escorram de mansinho. Recomendo que o choro dure apenas o tempo de esperar que sua alma se adapte à mudança.
Diga “adeus ano velho”, “alô ano novo”. E, então, vá beber qualquer coisa para acabar de vez com aquela esperança que insiste em pular como um macaco louco dentro de você.
AH, como este blog está atrasado!
Então, regsitro mais um texto, que espero alguém venha a ler:
Quem já não teve essa sensação esquisita que parece alucinação e que os franceses, muito finos, chamam de déjà vu?
Traduzindo em miúdos, déjà vu é a impressão de já ter experimentado ou visto antes algo que aparentemente se está experimentando ou vendo pela primeira vez. Quem nunca teve essa vertigem que repete a mesma cena em algum lugar interrompido, por segundos, no fluxo do tempo que levante a mão ou que atire a primeira pedra nesta pobre escritora que vive acreditando que a vida humana não é senão “a primeira entrega de uma alma seriada”, como diz Vladimir Nabokov, e que, portanto, a duplicidade seja lá do que for não se constitui em segredo nenhum, nem em mágica para enganar alguns tolos, nem é mostra de dissolução dos sentidos.
Pois, na semana passada, eu tive um desses repetecos esquisitos. E foi tão esquisito, mas tão esquisito que seria capaz de matar Neo de inveja. Vocês sabem a qual Neo eu me refiro, leitores. Neo, o jovem pirata de computadores que, em Matrix, enxerga o mesmo gato passando pelo mesmo lugar duas vezes, sem que haja descontinuidade do momento em que o estava vendo.
É que estava eu sentadinha em uma mesa de um café no saguão de um aeroporto em caos, o que não é novidade alguma nesse país sem controle, não apenas de rotas de vôo; estava eu sentadinha no meio de uma multidão que oscilava entre o conformismo e a indignação, à espera de um Godot milagroso que viesse dar a boa notícia de que seu avião partiria, afinal; estava eu sentadinha a bebericar um expresso e a olhar, desconsoladamente, os painéis das companhias aéreas, quando eis que a meu lado se materializa alguém de quem já lhes falei há três semanas atrás, aqui neste dominical e abençoado lugar.
Sim, espero que vocês se recordem: é aquele moço de óculos redondos, barbicha e ar desbotado de quem não vai á praia pelo menos desde seu nascimento.A criatura pespegou-me o mesmo beijinho na face, pediu a mesma permissão para sentar-se a meu lado. Eu consenti, meio zonza. No fundo, achando que tudo não passava de uma visão ou de uma miragem provocada pelo cansaço, e até desloquei a bagagem que havia estrategicamente posto sobre a cadeira, na esperança de salvaguardar um pouco de privacidade no meio daquela loucura.
Ele, então, se sentou e de novo começou a falar de seus filmes e de filmes alheios. E falava e falava e falava, e despejava de tal modo torrencial tantos conhecimentos que, quando dei por mim, eu cabeceava, vergonhosamente, sobre a minha xícara, com os ouvidos atulhados e o cérebro anestesiado por tanta erudição.
É claro que pedi desculpas, aleguei ter acordado de madrugada para tentar embarcar rumo a meu destino, como as centenas de passageiros que iam e vinham a nosso redor.
Porém, mais uma vez, ele se levantou ofendido, limpou as lentes na mesma flanela retirada do bolso e, da mesma maneira, se foi, em busca de quem fosse mais digno de partilhar seus dotes cinematográficos e saberes. Não sem, antes, estufar o peito para exibir-me a frase “Glauber Rocha está vivo!!!”, que ele trazia estampada de modo triunfal sobre a camiseta..
Recebi da Renilda, capixaba como eu, a bonita msg que transcrevo abaixo.
Prezada cronista,
Também fui uma das meninas do Colégio do Carmo, de
Gosto muito de ler suas crônicas, publicadas aos domingos no jornal A Gazeta, e a penúltima, sobre a rua Dom Fernando, mexeu com muitas lembranças e trouxe à memória fisionomias de outras meninas que eram minhas companheiras no percurso que fazíamos a pé, do Parque Moscoso ao colégio , passando pela Dom Fernando. O grupo aumentava ao longo do caminho quando encontrávamos colegas que moravam naquela rua e nas proximidades. Falávamos de provas, de aulas e de professores, de romances lidos, vividos ou sonhados , de filmes, de roupas , de férias , de assuntos familiares e muito mais.
Lembro da preocupação com a pontualidade e do temor de chegarmos depois que Irmã Zoé (?) fechasse o portão. Lembro também do peso dos cadernos ,dos livros e do material para a aula de trabalhos manuais.
Muitas das companheiras de caminhada e colegas de turma foram depois para a Fafi , assim como eu. Naquele tempo, íamos caminhando para a faculdade, o trajeto ficou maior, mas ainda passávamos por lá, pela Dom Fernando. Depois os rumos mudaram...
Quando li a crônica tive vontade e uma quase que necessidade de lhe escrever para dizer do quanto fiquei tocada pela beleza e sensibilidade de sua abordagem, que mexeu com tantas lembranças, mas temi a ousadia de escrever a uma escritora.
Novo domingo, nova crônica , mais lembranças e sentimentos compartilhados. Também me deixo levar por pensamentos questionadores sobre como teria sido determinado local em outros tempos,como era utilizado, que pessoas viveram ou passaram por ali.Pode ser uma maneira sonhadora e consoladora de pensar sobre o tempo e sobre a certeza da nossa finitude.
Bem, ousei !
Espero que suas belas crônicas tragam encanto para nossas manhãs de domingo, por muito tempo.....
R.
É impressionante como são belas as pedras e a forma como estão dispostas, exuberantemente, por toda esta ilha. É verdade que, a cada vez mais, as construções vão subindo por elas, deixando-as escondidas sob ou por trás de prédios e muros e casas. Ou vão plantando sobre elas esdrúxulos trecos, como uma caixa d’água azul que macula um pequeno rochedo, no morro que avisto daqui da janela.
Claro que muitas dessas formações rochosas parecem banais. Assim, nem todas têm a sorte daquela em formato de uma cebola, em boa hora guardada em um parque e posta sob holofotes. E é visível que nem o Penedo, em sua magnificência, escapou de certos acintes, apesar de lá continuar imponente debaixo de um jato de luz.
Ora, dirão alguns, assim como a pedra da Cebola, o Penedo fica no continente.
Sei, senhores implacáveis exegetas. Porém, de tal forma o Penedo está em nossas capixabas entranhas que pode ser considerado supraterritorial. Que teríamos nós de melhor a invocar que o Penedo, quando se trata de testemunhar nossa história? Se repararem bem, ainda lá, cravados na carne do rochedo, quase rente à linha das marés, estão os ganchos em que dona Luiza, a capitoa, no século XVI, mandou prender as correntes de ferro que, indo desde o Forte e passando por debaixo das águas, detiveram as naus do corsário, disposto a entrar em Vitória.
Alguns pragmáticos dirão que isso tudo não passa de devaneios de ficcionista e que, além do mais, pouco importa a beleza das pedras sobre o solo eriçado se há necessidade de espaço e não há para onde correr, pois a ilha é pequena e a cidade que ela suporta sobre a espinha do maciço central vai crescendo e a cada dia é maior o número de seus habitantes, graças aos deuses e ao progresso, e que mais ainda cresça para benefício geral.
Sim. Sim. No entanto, avaliem o prazer de meus olhos ao dar, de repente, com uma pedrazinha que escapou da febre geral e ficou escondida nas profundidades de uma rua modesta do Horto. Espero que, assim, me desculpem pelas perorações.
Era, como já disse, uma pedra singela. Em sua singeleza, guardava um pouco de tudo que deviam ter tido as suas irmãs, já corroídas ou desbastadas em nome dos aterros e do avanço da civilização. Cobriam-na lianas e folhagens de espinhos, típicas de beira de praia, e pequenas flores amarelas apareciam, aqui e ali, nas reentrâncias em que um pouco de terra se depositava. O topo era liso e redondo, chapeado de crostas de musgo e, se a gente buscasse, talvez até encontrasse uma ou duas conchas embutidas, remanescentes de um tempo em que até ali chegava o mar.
Confesso que bateu uma nostalgia de muita coisa que eu nunca vivi nem vi nesta ilha e que, ultimamente, vem me atacando a cada vez que piso sobre o solo bendito do Espírito Santo.
Não se alarmem, queridos. Trata-se de uma estranha doença que acomete quem anda pelas sincronias e anacronias dos oitenta mundos de que Cortazar falava. Costuma dar em camaleões e em escritores. Graças a isso é que se sabe que nada está perdido. Nem o afeto, nem a formosura das pedras, nem o sentimento.A rua é torta e em curva ascendente e cumpre seu papel de rua que é deixar passarem os passantes. E há um espaço para que os carros subam para a parte alta da cidade, no centro.
Adivinhem o nome da rua. É de rei, de fidalgo ou de bispo.
Outrora, foi riscada pelos trilhos do bonde vindo do Santo Antônio que depois de atravessar o Parque Moscoso se arrastava pela ladeira acima até virar a curva, descer desabalado e desembocar no ponto em frente ao castelinho. Aí, saltávamos nós, as meninas do colégio do Carmo, de saias azul-marinho e blusas brancas, abraçadas aos cadernos e pastas, pois não havia ainda as mochilas que agora se carregam nas costas como pequenas cargas de burro.
À direita da subida, ficava a casa de Maria do Carmo Rabello (por onde andará? era uma querida!). À esquerda, muros altos sustentavam um casarão antigo rodeado de mangueiras, com acesso pela escadaria cortada no corpo da pedra.
Com essa estranha mania de ver com olhos de para além do que é visto, eu olhava para os muros e me deleitava em pensar que, antes deles serem erguidos, aquela curva apertada, rasgada pelo bonde, tinha sido um caminhozinho encravado na raiz do maciço central.
Eu imaginava os primeiros habitantes a escorregar nas beiras do penhasco e até via uma fonte que se abria na encosta do monte coberta de vegetação que se alinhava acima da capela erguida ao lado de uma lapa, ao lado da vila.
Ah, mas isso, foi há muitos e muitos séculos. No tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça e que a ilha era apenas uma ilha, uma pedra bruta plantada a beira do oceano, varrida pelos ventos, repleta de índios, degredados, frades, colonos, plantações de milho e limões. Não havia ainda os aterros que a transformaram em uma quase península, as criaturas urbanas que a habitam, nem as avenidas à beira do mar com seus prédios que barram a entrada das correntes de ar vindas do sul.
Não há tantos séculos assim (- porém, quase - dirão os mais maliciosos) foram meus devaneios de adolescente, sentada no bonde.
Hoje, a rua é uma cópia mal-feita daquelas delícias.
Algumas antigas moradas permanecem fechadas, tristemente expondo a decadência de azulejos, estátuas, parapeitos e vasos de gesso; outras viraram prédios grosseiros e mal-feitos.
O casarão está lá, em frangalhos, coberto pela mataria de onde saem trepadeiras sem rumo que avançam e se espalham pelos fios elétricos. O telhado desaba um pouco mais a cada pancada de chuva. A escadaria de acesso permanece trancada por um cadeado enferrujado no portão de ferro.As mangas apodrecem sem que ninguém as venha colher.
Em uma dessas minhas abençoadas vindas à Vitória, não muito recentemente, vi um caminhão refazendo o asfalto que cobriu os trilhos do bonde. Mas, a pequena fonte com que eu sonhava, hoje mina e escorre como um esgoto perpétuo do paredão em ruínas. E as calçadas, esburacadas em toda a extensão da rua, são como feridas abertas que deixam em perigo quem anda por ali.e, sobretudo, gritam de abandono e dor.
|
||||
|
||||