É. Eu sei que são textos bem grandes para um blog. Mas, espero que alguém tenha a paciência de lê-los....
DE PÁSCOA, DE SINOS E DE AFETO
Aos domingos, eu desligo o despertador. Acordo escutando o sino da igrejinha de um convento de carmelitas que fica a duas quadras daqui..
Não seria motivo nenhum de interesse, esse arroubo bucólico, se não se tratasse de um sino isolado no meio do ruído desta cidade em que moro e que é o que mais perto se consegue chegar do inferno, se o inferno for feito de ônibus ruidosos, escapamento de motos, rangidos de freio, pedestres alucinados e onde, nos momentos mais duros – aqueles que, em todo lugar civilizado se convencionou chamar de momentos de pico, mas que aqui são todos - é preciso parar, fechar os olhos e pensar que há algo muito além do trânsito, do trabalho, da paranóia, da correria, das crianças vendendo limões nos sinais ou mulheres esmolando nas esquinas ou adolescentes roubando celulares para comprar drogas nas praças.
Abro um parêntesis para confessar que, em horas assim, eu me esqueço que habito esta paulicéia mais que desvairada, para lembrar que longe, a milhas e milhas, a quilômetros e mais quilômetros, a centenas de vôos dos pássaros e dos aviões da TAM, há uma ilha cravejada de sol, esse sol que sempre faz faiscar uma certa cidade que a ilha suporta nas encostas de seu espinhaço enquanto fieiras de montanhas serrilham o horizonte, a oeste, e a leste, o mar cintila. È claro que estou falando de nossa Guanaani, nossa doce capital, da qual só quem por uma dessas bobeadas do destino teve de ficar distante pode, realmente, avaliar os encantos.
Mas, deixemos de coisas e cuidemos da página de hoje, que vai por conta dos sinos da igrejinha das carmelitas que moram por trás daqueles muros fechados acolá, ainda mais que é tempo de Páscoa e, na Páscoa, pegam bem os sinos, além dos ovos de chocolate, das fitas vermelhas e dos coelhos.
Pois bem, aos domingos, quando o trânsito consegue dar uma adoçada e os mortais se encolhem em suas tocas de cimento armado e metal ou abandonam este campo urbano de egos, poluição e asfalto, para descer em penosas carreatas, em busca do refresco do oceano, lá embaixo, aos domingos, eu dizia, dá para acordar escutando o sino.
É verdade que se trata de um sininho que emite um som tímido, mais para o repique de um badalo modesto nas paredes côncavas de um objeto de lata, que para um bom sino. Está longe de parecer o som delicioso dos sinos da São Gonçalo, centenária, mirando os navios no cais do porto; o som dos sinos da Penha, batendo para romeiros e navegantes; o som do sino da capelinha do Carmo, delicadamente ressoando ao vento; o portentoso sino da catedral chamando os capixabas devotos à missa.
Hão alguns de dizer que esta página está cheia de saudosismo piegas. Que ninguém está interessado nos sinos e, muito menos, nos resmungos de uma escritora que pegou a estrada, partiu e, bem feito! agora morre de vontade de voltar ao descanso de sua terra natal.
Os mais práticos dirão até que há coisas mais interessantes e mais enobrecedoras para ler, nestes tempos de Páscoa. Fecharão o jornal.
Não importa. Resolvi que falar do sino das freirinhas seria melhor, hoje, em plena época pascal, que falar de ovos de chocolate, de coelhos ou de fitas vermelhas.
Por tudo de saudade e de afeto que representa, falar do modesto sino que me acorda aos domingos seria o melhor presente de Páscoa que eu poderia dar para companheiro, filho, netos, mãe, irmãos, parentes, não parentes, amigos, inimigos, conhecidos, desconhecidos e, sobretudo, para vocês, leitores que, por interesse ou por distração, chegaram ate o final desta crônicaBem, eu sou meio lenta para essa história de blog. Mas, devagar, vou registrando minhas crônicas já publicadas para quem me pediu e não tem acesso ao Jornal A Gazeta todo domingo. Aí vai mais uma, dos tempos em que eu não tinha o blog. Isso foi em abril deste ano de 2006.
EU NÃO TENHO BLOG
Mas, há coisas também que a gente se sente constrangida de admitir, tamanho o escândalo que os amigos e compadres fazem quando elas são confessadas. Uma dessas é dizer: “Eu não tenho blog”.
Afinal, o que é blog? O recurso foi criado para a web, em agosto de 1999, por Evan Williams. E a palavra não está nos dicionários. É uma invenção dos dias vertiginosos de agora. Porém, qualquer internauta sabe que blog é um registro online no qual se publicam notícias, histórias, idéias, poemas, frases feitas, comentários, conselhos, textos de auto-ajuda, declarações de amor, choramingas e um sem número de opiniões, bobagens ou intimidades que o blogueiro esteja a fim de espalhar. Ou seja, o blog é a versão pós-moderna do velho e bom diário. Só que nada discreto.
Os blogs são espécimens prolíferos. Reproduzem-se como os coelhos. Brotam quais cogumelos na chuva. Calculando por baixo, deve haver, deles, uns trinta milhões.
Atuar no blog é blogar. Verbo novo. Mas, nem tanto, pois zilhões de criaturas o praticam em todo o planeta.
Não ter blog equivale, hoje, a estar vivendo na Era Mesozóica. Eu não tenho blog. Portanto, sou um dinossauro.
Em contrapartida, todos os meus conhecidos têm blogs. Alguns se dão ao luxo de ter fotologs, onde estampam a efígie da família inteira Desde o rosto do autor até os fartos bigodes de um tio que mora em Lisboa. Uma amiga, fotoblogueira fanática, expõe seus dois poodles, vestidos com criações da última moda canina, a cada semana.
Aliás, reina a democracia nos blogs. Cromos de folhinha ilustram versos de Camões, frases do Dalai Lama aparecem sob figurinhas de fadas, cirandas de rosas convivem com trechos de discursos de Bush. E, através dos blogs, descobri que metade da humanidade dorme agarrada a bichos de pelúcia e a outra metade está preocupada com os lábios de repolho de Angelina Jolie.
Tem blog pra tudo. Você foi de férias a Paris e esqueceu na casa da sogra, em Cariacica, aquele casaco comprado especialmente para a ocasião? Você se apaixonou pela filha de seu melhor amigo, vinte anos mais nova? Você adora churrasco sangrando, mas seu marido é vegetariano e em sua casa só se come bife de soja? Não se preocupe. O blog está aí para ouvir o seu desabafo. E o que é melhor, tudo pode ficar no anonimato. Basta arrumar um pseudônimo bem esquisito. Abaixo o psicanalista! Viva o divã virtual!
Os títulos bloguistas são deliciosos. Vão do sério ao delirante, do catatônico ao alegrinho. “Pra frente, Afeganistão”, “Não to nem aí”, “Eu odeio salamandras”, “Faça sexo com seu terapeuta”, “ Fidel dormia com o Che”, “Todos ao cemitério”, “Humpft humpft”, “Simon & Garfunkel”, estas são algumas amostras..
A sessão de recados também é um capítulo à parte. Nos blogs dos adolescentes, então, é divina. Não deixa de incluir elogios ou impropérios sobre os blogs, uns dos outros. É uma enxurrada de: “ae, blog masa passa la nu meu e dexa um coment flouuu”, ou então de: ”oiêe, vc fika linda com esse lay, gatinha”. Às vezes penso estar acessando, por engano, a página de um vulcano orelhudo ou de mercador ferenghi.
E quem pode jurar que a web não é intergaláctica? Talvez seja. E só os incautos da rede (como eu) não percebem que aquela moçoila que entope sua página com adocicados poemas e ursinhos dançantes é, de fato, uma guerreira klingon, blogando de uma nave de rapina para além das galáxias.
Mas, nem só de abobrinhas vive o reino dos blogs. Jornalistas e intelectuais fazem dele um depósito de opiniões que, de outra forma, não circulariam com tanta presteza. Além disso, se os jornais e emissoras de televisão têm de ser profissionalmente frios, os blogs permitem a emoção. Qualquer um pode escorregar no tobogã da rede.
O blog é ideal para escritores frustrados com a parca parcela de leitores que compram seus livros. Prometo criar o meu, logo. Assim, acabo com a vergonheira de não ter um blog. E, mesmo que ninguém o visite, o consolo da ilusão restará.
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