O CENTRO
Vocês já repararam, leitores, que, em Vitória, a manhã começa mais cedo do lado de lá, que dá a frente para o canal. Do lado de cá, que fica em frente à baía de atracação dos navios, o sol se aproxima do pico do maciço central de mansinho, fazendo-se anunciar por um clarão no céu até que uma explosão de luz ultrapassa o perfil da montanha, escorre nos morros do Moscoso, Fonte Grande e Piedade, bate sobre as vielas, ruas, ladeiras e escadarias que, em seu sobe-e-desce, foram se amoldando sobre a crosta da ilha desde o tempo em que ela era apenas uma pedra bruta ancorada na beira do oceano.
O maciço central abre as asas, deste lado de cá, em torno do centro que se abriga em suas encostas rochosas.A cidade começou nessa rocha imponente.
No princípio só existia ele, o rochedo, e, sobre ele, se fez o quadrado de edificações dos primeiros habitantes vindos de além-mar. Um quadrado de edificações fundado no alto, ao abrigo de piratas e naus estrangeiras, protegido de ataques das tribos ferozes, pois Vitória nasceu encolhida sob o signo da defesa e do medo. Depois, se fizeram os aterros cobrindo a parte plana, no baixo, sobre a entranha dos mangues, pauis e lodoçais.
No baixo, se plantaram casas e, espantosamente, se ergueram edifícios tão altos que nem imagino porque artes de engenharia o solo aterrado não afunda com ele. Construções mais antigas também foram deixadas por cima do aterro: o teatro Carlos Gomes, o Glória, a Fafi, a praça Oito, a Costa Pereira que fica na embocadura das ruas Sete, Gama Rosa e Treze de Maio, e é tão familiar e tão conhecida que dispensa a referência de praça.
No alto, o centro tem as belas ruínas do mosteiro de São Francisco e tem o cais seco com o mesmo nome do santo, revelando até onde iam as águas que passavam pela vala, agora confinada sob o asfalto da avenida República, águas e brejos que se espraiavam pelo local onde se ergue o parque Moscoso. Tem o Palácio que um dia, foi a igreja de Santiago e que herdou os ossos e o nome do jesuíta Anchieta. Tem o diálogo das igrejas velhas, erguidas uma de frente para a outra, e algumas de frente para o nada como a capela Santa Luzia, a primeira que foi levantada na ilha e que, ainda hoje, parece povoada por cavaleiros, aventureiros, damas, escravos, frades, freiras, noviços, arcabuzeiros e toda uma população de fantasmas que se recusa a ir embora da amada terra sedimentada sobre seu pó.
O centro ficou assim, uma desordenada mistura dos baixos e dos altos. Como em muitas cidades, dirão os mais céticos.
Ah, sim, meus preciosos. Porém, em nenhuma cidade com essas singularidades que tornam os altos e os baixo tão próximos, tão familiares, a ponto de que a gente está no alto, perto da catedral, por exemplo e basta descer alguns passos e já está sob o viaduto, lugar em que, outrora, arribavam as canoas e as marés cheias lambiam o pé da escarpa de onde, segundo as más línguas, eram atirados baldes de lixo e barris de matéria menos nobre, tal qual aquela que a Maria Ortiz atirou nas cabeças belamente encapacetadas dos mercenários holandeses.
O centro de Vitória é como uma caixinha de nossas memórias, é como labirinto em que se cruzam os vivos e os mortos. Pena é que, todos eles, os mortos e os vivos, diariamente tropeçam naquelas maltratadas calçadas que, por descuido ou omissão daqueles a quem caberia cuidá-las, abrem lascas, fendas e feridas ao longo das ancestrais ruas do centro.
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