Nesta semana, estudiosos da Universidade de Portsmouth anunciaram que os cães podem ser o segredo da felicidade, porque estimulam seus donos a sair para passear com eles. Mesmo em dias de tristeza ou de mau humor.
A pesquisa demonstrou, também, que os pais ficam contentes de que seus filhos saiam da frente da televisão ou do computador e façam algum exercício, enquanto levam o cão da família para dar seu passeio.
Quem diria! A humanidade se descabela em busca desse difícil dom e a solução está logo ali, ao alcance de uma coleira! Abaixo o prozac, amigos leitores. Corram para esses seres peludos, capazes de fazerem esquecer as dores de amores e o fastio do cotidiano. E que, além do mais, servem de personal trainer na recuperação de jovens viciados na web.
Ninguém ignora que os cães sempre estiveram presentes na existência dos humanos. Esses abanadores de rabo aparecem gravados até nas cavernas de nossos ancestrais.
Muitos deles ficaram famosos pela lealdade. Como Argos, o velho cão de Ulisses, o único a reconhecer o seu dono quando este retornou à ilha de Ítaca, em busca da esposa fiel, a Penélope, vinte e tantos anos depois que a deixara para ir saracotear pelos mares entre as moças de cauda de peixe e os lençóis perfumados de Circe.
Outros foram motivos de versos. Como a cadelinha Issa, pertencente a um nobre mancebo romano, à qual o poeta Marçal, com arroubos de entusiasmo, chamou “mais formosa que o pássaro Lesbe, mais pura que um beijo de pomba, mais preciosa que as pérolas da Índia, mais carinhosa que todas as moças”.
Enfim, gosto não se discute.
Não sou louca por cães, mas não condeno aqueles que o são. Respeito os devotos dessas criaturas de quatro patas. Se bem que quero distância de alguns, como dos que se fazem acompanhar de esfregadores fanáticos por canelas humanas ou dos donos de pit bull que andam sem focinheira. O resto, é passível de minha condescendência.
Chego mesmo a esboçar interface amigável com algumas senhoras que passeiam seus bichos pelas calçadas, desde que venham municiadas de pás e de saquinhos de plástico, onde se deposita aquilo em que nenhum pedestre merece escorregar.
Na verdade, leitores, vocês já devem ter desconfiado que este lero-lero sai da boca de uma gatófila. É verdade. Confesso que, no reino animal, não vejo nada que se compare a um felino.
No entanto, dou crédito aos letrados de Portsmouth que atribuem curas miraculosas ao povo canino. Se assim querem os sábios da velha Inglaterra, quem sou eu, que nem cachorro eu tenho, para ir contra a erudita maré?
Não tenho cachorro, mas tenho uma conhecida que vive a lamentar-se pela falta de alguém que aprecie seus dotes, hoje customizados em uma plástica caríssima. Agora que li a receita britânica da felicidade, cogito recomendar-lhe uma visitinha a um canil.
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